Publicado em: qui, fev 17th, 2011

Participante do projeto Rondon conta sua experiência em Miguel Alves

   

Foto: Divulgação

Após minha passagem por Miguel Alves, PI senti a necessidade de registrar o que significou esse Rondon para mim. Esse relato, no entanto, é uma percepção que eu tive do município e dos dias que passei lá, não tendo nenhuma relação direta com o trabalho feito pelo Ministério da Defesa em parceria com a Prefeitura de Miguel Alves. Que essas palavras fiquem como representação de um momento especial na minha vida.
Espero que essas palavras cheguem a cada morador de Miguel Alves. Tentei enviar esse texto para a prefeitura, mas não consegui. Faço do Portal Miguel Alves um instrumento para que eu possa agradecer e expressar o que significou para mim, e acredito que para meus colegas, esses dias de trabalho no município.
O Projeto Rondon foi uma grande oportunidade não só para mim, mas para muitos outros estudantes desde que iniciado, em 1967. Conhecer a cidade de Miguel Alves me trouxe grandes surpresas e, embora tenhamos sido “avisados” todo o tempo que encontraríamos no município uma situação diferente da nossa, em nada a realidade que encontramos se aproximou daquilo que estávamos esperando

A receptividade dos habitantes da cidade foi muito boa, trabalhamos em diversos setores e entramos em contato com a maioria dos miguelalvenses. Atingimos a todos com o nosso desejo de promover mudanças? Provavelmente não. As informações não chegaram a todos os lugares, mas, com a melhor das intenções e com uma injeção extra de interesse saudamos a cada manhã, durante duas semanas àqueles que nos receberam em suas casas e compartilharam conosco alguns momentos de suas vidas.

A sensação de que não se faz nada que vá mudar alguma coisa na cidade é menor do que antes da chegada, mas não sei se isso é exatamente bom. Na verdade, acho que no fundo saímos da cidade querendo acreditar que o que fizemos realmente terá algum valor fora de nós e do nosso mundo. É fato que os maiores ganhos são nossos, mas dar a isso o sentido de nossa estadia no município é mais egoísta e mesquinho do que queremos acreditar ser o nosso papel.

Trabalhei especificamente com crianças e vi que fiz a diferença para algumas delas. Um garoto pode ser considerado a síntese desse momento. Em um dos assentamentos que visitamos, tão curioso, ele estava atento a cada palavra trocada pelos mais velhos, na conversa entre o professor e o sargento. O que passou pela cabeça do garoto naquele momento jamais saberemos. Uma coisa é fato. Essa, para ele, será sempre uma lembrança incomum.

E não apenas esse menino, mas outras crianças nos proporcionaram momentos especiais nesse Rondon. Do relato de abuso sexual que preocupou as colegas até aquelas que não conversavam conosco, mas que não se afastavam de nós até a hora de irmos embora, cada uma daquelas crianças mexeu com algo nas nossas cabeças. Sabíamos que seria difícil? Sim. Que encontraríamos casos que nos chocariam, que ficaríamos perplexos com algumas coisas? Também. Mas jamais imaginamos fazer pessoas tão felizes com uma conversa, que tiraríamos de suas casas e afazeres pessoas habituadas a uma vida sem maiores alterações.

Esse Rondon valeu a pena? Digo por mim e por cada um dos demais rondonistas, que conquistamos algo que jamais esperamos nesses 15 dias. Talvez e muito provavelmente não fizemos a diferença que pretendíamos ao embarcar em um voo, comercial ou da Força Aérea, em nossas cidades, mas tivemos conquistas que não podem ser explicadas e que as mais de seis mil fotos que tiramos não conseguirão jamais mostrar.

E não foram só as crianças que tornaram especiais os momentos em Miguel Alves. Alguns dos adultos tiveram ali, conosco, uma das primeiras, senão a primeira chance, de conversar sobre alguns temas, de mostrar feitos e contar histórias. Não digo que todos os momentos em Miguel Alves foram bons. Tivemos problemas, não nos adaptamos totalmente ao clima, mas vencemos, dia a dia cada barreira imposta pelo acaso.

Se o destino veio com tudo, estávamos preparados para suas surpresas. Descobrimos a melhor coisa a se fazer quando o carro quebra na estrada, percebemos que não precisamos de tanto tempo de banho e nos habituamos a conviver com sapos, pererecas, mariposas… Até adotamos um barbeiro. Como estávamos diferentes se vistos no primeiro e no último dia… Fizemos muitos e importantes laços e várias das histórias estarão conosco para sempre.

Encontramos em Miguel Alves fatos diferentes daqueles a que estamos habituados. Algumas situações nos deixaram preocupados e sem ideia de que reação ter. A cidade tem problemas de infraestrutura e saneamento que a minha também tem. Talvez tais fatos sejam até negligenciados da mesma forma. Uma máxima podemos alterar. Quando dizem que cada um tem o governo que merece, prefiro acreditar que cada um constrói para si o governo em que acredita.

Nesse sentido, tivemos uma discussão importante sobre Responsabilidade Social que espero que tenha deixado frutos. A maioria dos habitantes conhece muito bem seus direitos e deveres e sabe quais os problemas do município. A necessidade de trabalhar mais pelo coletivo e exigir enquanto sociedade – leia-se grupo de pessoas – do Estado, da própria população, dos vizinhos, do comércio local etc. foi uma importante conquista da conversa que fez diferença para mim nessa passagem do Rondon por Miguel Alves.

E as histórias? Quantas histórias maravilhosas podem ser perdidas pela falta de integração entre as gerações. Da torre do sino da Igreja Matriz às assombrações do atual Fórum da cidade que já foi um presídio. Que inveja dessas histórias que a minha cidade não tem. Dessas histórias a que só posso ter acesso através dos livros, mas que a muitos jovens de Miguel Alves pode chegar em uma conversa, em uma sala ouvindo pássaros cantando.

Se o Rondon deixou uma lição? Muitas. Se alguma delas merece maior atenção? Todas. Mas de tudo que vimos e vivemos, deixo um especial destaque pelo interesse de estudantes, professores, governo e, principalmente, moradores dos municípios que receberam essa visita. Ao participar de um projeto como o Rondon cada um tem um desejo diferente, mas todos têm um objetivo igual: esquecer os obstáculos pelo caminho e fazer de exíguos 15 dias um período de trabalho e de esforço (regado a energético as 08:00 da manhã? Que seja!) que não irá se repetir nem para quem o está promovendo nem para quem faz de tão poucos dias um momento de conversa e companhia em meio a muitos momentos de solidão.

Que esse momento inspire outros. Que o nosso país se modifique, não em força de um Rondon, mas pelo empenho da sua gente, pelo desejo de mudança e de trabalho. Que a ideia de sociedade prevaleça sobre os interesses individuais e que o Projeto Rondon seja apenas mais uma iniciativa de pessoas trabalhando por um presente melhor.

Atenciosamente,

Gessica Daniel